Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta cancro

INTERRUPÇÃO NÃO PROGRAMADA

VIVER...

  Nasci a lutar..  pela vida. Depois de uma sentença como prematura há 54 anos e de vencer o  estigma da epilepsia, tendo de provar a todos e a mim própria que era capaz,  sentia que nada me podia abalar. Até que o fantasma do cancro no útero pairou sobre mim, e arranjamos forças para  lutar, onde nunca sonhamos...e depois da tempestade vem sempre a bonança. Engravidei aos 37 anos e foi como uma purificação do meu ser. Renasci e ser Mãe foi e é o melhor de mim, tento incutir valores e princípios e dou-lhe asas para voar e sentir-me-ei realizada quando me tornar uma mãe dispensável, porque será o momento em que toda a aprendizagem fará sentido. Num percurso de vida  pautado por trilhos nem sempre fáceis, sou grata por ter família, amigos que são família e ter a minha fé em Deus e em mim que me levará sempre aonde eu acreditar!  Porque a Vida vale sempre a pena... Conceição Carlos

MOMENTOS DA VIDA

Há sempre um momento da nossa vida, que ela desaba. É cruel, é duro, é muito difícil de aguentar e que nos sentimos perdidos. Para mim esse momento chegou há 49 anos, o meu mundo desabou completamente. Nessa altura era uma jovem ainda, nem sequer vinte anos tinha, estava cheia de projetos, iniciava a faculdade, estava feliz e despreocupada, a vida corria sobre rodas para um rapariga da minha idade, não me faltava nada, tinha um namorado que gostava, tinha amigos, uma família que amava. Mas isso tudo desabou, quando a minha mãe me disse que tinha cancro, essa doença que tinha um prognóstico de morte, tão pouco falada, eu até nem me lembrava de ter conhecido alguém que a tivesse tido. Não desatei numa choradeira, logo ali em frente dela, pois não queria de maneira nenhuma que se apercebesse do que me ia na alma, apesar de hoje saber de me ter lido nos meus olhos, o que a boca não dizia, eles traem-me sempre. Já bastava, para ela, uma mulher jovem, o que devia estar a sentir, não tinha o ...

VIVER COM CANCRO (2)

Como vos disse no meu último testemunho o cancro no reto tinha que ser extirpado através de cirurgia. Como tinha cerca de 29 mm o grupo médico que me segue resolveu que eu me sujeitasse a radioterapia para o tornar menor antes da cirurgia. Como disse, este tratamento durou cinco semanas (de segunda a sexta-feira) e foi complementado com capecitabina para potenciar o tratamento radioterapêutico. No início não custou nada mas com o acumular dos tratamentos tornou-se tormentoso. Vómitos, falta de apetite e diarreia eram uma constante. Este tratamento terminou em 14 de junho. Voltei a fazer mais 4 semanas só com capecitabina, de meados de julho a meados de agosto.  No final de agosto fiz a avaliação do tamanho do carcinoma e tinha reduzido para 22 mm. Aí foi agendada a cirurgia para o início de setembro. O cirurgião teve uma conversa comigo e explicou em que consistiria a intervenção. Iria cortar a parte do intestino “doente”, desviar as fezes para um orifício (estoma) no abdóme...

FOI ENCONTRADO OUTRO...

..na bexiga.  Assim soube que, além do cancro no reto, tinha outro na bexiga. Mas comecemos pelo princípio para verem como a nossa vida se altera por completo. Eu precisei de renovar a carta de condução e a renovação implica que a médica de saúde familiar, ateste que estamos na posse das faculdades necessárias. Munido de um certificado do oftalmologista no qual é afirmado que uso óculos com x dioptrias no olho esquerdo e y no olho direito, dirigi-me à minha unidade de saúde familiar para a consulta aprazada. A médica auscultou-me, colocou questões, ordenou que fizesse análises ao sangue e à deteção de sangue oculto nas fezes e passou-me o certificado que eu precisava para a renovação da carta de condução.  Dirigi-me à repartição própria para obter nova carta de condução e a uma clínica para tratar das análises requeridas pela minha médica. Fiz as análises, passados uns dias recebi os resultados e entreguei-os na USF para a médica os analisar. Em finais de Jane...

A VIDA

Nascemos, crescemos, tornamo-nos adultos, envelhecemos e morremos. Quase todos temos descendência (filhos, netos, bisnetos, etc.) Em duas linhas temos a nossa vida resumida. Não falei nas alegrias, nas desilusões, mas tudo é parte integrante do ciclo acima referido. Também surgem constipações, gripes, lesões musculares, fraturas, infeções e também estas mazelas fazem parte da vida. O nosso clube ganha, o nosso partido perde ou vice versa e continuamos a mudar as folhas do calendário como se nada tivesse acontecido. Reconhecem o nosso valor, temos uma oferta de emprego melhor ou somos despedidos. Tudo nos traz tristezas e alegrias ou, como alternativa que nos anafa a cintura, a vida corre rotineiramente e sem sobressaltos . O problema maior é o surgimento de uma doença, uma verdadeira doença, aquela que faz desabar o mundo na nossa cabeça. Quando com maior ou menor piedade nos diagnosticam alzheimer ou um cancro. Aí precisamos de todo o apoio. A família, os amigos e o...

A NOTÍCIA QUE NINGUÉM QUER OUVIR: NOVA FASE

Os dias vão passando. A olho nu, não se veem melhoras. Sei bem que tu continuas a fazer a tua parte, mas também te sinto muito triste. Não comunicas, estás sempre no teu mundo, sentado no sofá, à espera que as horas passem. O teu olhar não se fixa em nada por mais do que uns segundos. As horas das refeições são um autêntico martírio. Eu, tento fazer o que me foi transmitido. Tu sentas-te à mesa, olhas para a comida, mexes e remexes o que está no teu prato. Olhas para mim com um olhar tão meigo e ingénuo, tal qual os bebés fazem para as mães no momento em que já não querem comer mais. Esperam um consentimento. Quanto a ti, eu não te posso dar esse consentimento. Tenho de insistir. Precisas de comer. Precisas de repor energias e quanto mais tarde o fizeres, mais fragilizado ficas. Voltamos ao início. Continuas a mexer na comida e finalmente, por insistência, levas uma garfada à boca. Fico muito feliz por ver que estás finalmente a iniciar a refeição mas, é “sol de ...

A NOTÍCIA QUE NINGUÉM QUER OUVIR: OS TRATAMENTOS

Agora que estamos em casa, há que recomeçar. Vamos ter de aprender imensas coisas. Vamos ter de saber lidar com a tua doença, sempre focados na tua recuperação. Vão iniciar-se 5 semanas de tratamentos. Serão tratamentos diários, com exceção dos fins de semana. Terás tratamentos de quimioterapia e de radioterapia. Vejo-te otimista. Pareces-me decidido a lutar e a enfrentar todas estas questões e efeitos colaterais que terás não só ao longo destas 5 semanas, mas também durante mais algum tempo, embora nós não consigamos saber, exatamente quanto. Começamos a instalar rotinas. Lemos e relemos os procedimentos. Tentamos fazer tudo de acordo com o que nos foi transmitido. Foco-me nas instruções que recebeste na consulta de Nutrição Oncológica. Pego no meu telemóvel e fotografo o tríptico que trazes com as coisas que podes e não podes comer. Queremos que passes por esta delicada fase, com a melhor qualidade de vida possível e que consigas o melhor resultado de todos que é...

A NOTÍCIA QUE NINGUÉM QUER OUVIR: PRIMEIRA ETAPA (conclusão)

Passou mais um dia. A evolução a meus olhos, parece favorável. Já te consigo ver sorrir, já pedes para ver o telemóvel. Estou muito feliz! Tudo isto é um excelente sinal. Aguardamos a visita do teu médico e o respetivo veredicto. Sinto que o tempo passa e tu começas de novo a ficar impaciente. A enfermeira acaba de te tirar a algália. Finalmente vais poder andar sem essa parafernália toda. Levantas-te e percebo que algo não está bem. Tu reparas que não consegues suster a urina. Vou pedir uma fralda. Tu olhas para mim com um olhar que nem sei bem descrever o que quereria transmitir. Afinal tínhamos outra luta pela frente… Neste o momento o teu médico chega e diz que amanhã, se tudo correr, como até aqui, já terás alta. Ficas imensamente feliz mas, ao mesmo tempo, preocupado com a incontinência. Falamos com o teu médico e ele informa-nos que tudo isto é perfeitamente normal e que dentro de pouco tempo, tudo será como antigamente. Que felicidade sentimos!!!!  Afina...

A NOTÍCIA QUE NINGUÉM QUER OUVIR: 1ª ETAPA (continuação)

Finalmente chega a enfermeira e com ela toda a parafernália necessária para se dar início ao tal tratamento de quimioterapia local. Foste informado dos respetivos procedimentos e pela tua cara pude intuir que estavas muito decidido a levar por diante mais um desafio. O tratamento começou. O relógio começou também a contar. Era preciso que “aguentasses” duas horas, alternando, as posições corporais, tal como entretanto te foram explicadas. Cerca de 15 minutos depois, começo a ver que a tua cara está a modificar. Olho-te e vejo que a tua face mostra sofrimento e alguma intolerância. Tento distrair-te mas, sem sucesso. Procuro que te concentres noutra coisa mas, não consigo mesmo. Após 40 minutos pedes-me que chames a enfermeira. Assim faço e somos informados que mal termine de apoiar um outro doente, virá ter contigo. Sinto-te muito aflito. Sinto que estás desesperado. Dizes-me que não aguentas mais. Imagino que só não gritas por vergonha. Uns minutos ...

A NOTÍCIA QUE NINGUÉM QUER OUVIR: A OPERAÇÃO (continuação)

Se há dias em que estamos apressados este era um deles e o elevador parece que fazia de propósito para me atrasar. Estava a parar em todos os pisos. Finalmente cheguei ao piso onde tu estavas internado. A porta do elevador abre-se. Saio apressada. De repente a porta de outro elevador abre-se e sai uma cama, transportada por duas pessoas. Encosto-me para permitir que a manobra seja facilitada e qual não é o meu espanto, vejo que és tu que estás a chegar da sala de recobro. Que coincidência meu Deus! Olho para ti e vejo-te sereno. Conheces-me e sorris. Dou-te a mão e acompanho-te. Não paro de te observar. Pareces-me muito sereno. Em contraste com toda esta situação, o teu transporte é feito de forma “pouco ortodoxa”. As rodas da tua cama estão com sérios problemas e a deslocação não decorre normalmente. Pedem-te desculpa pelo sucedido e brincam contigo, dizendo: “Então porque escolheu esta cama? Não podia ter escolhido outra melhor?”. Pela forma como olhas para a tua inte...

A NOTÍCIA QUE NINGUÉM QUER OUVIR: A OPERAÇÃO

continuação da publicação anterior Acabo de deixar-te. Venho ainda muito focada na tua imagem, na tua despedida e na nossa luta que agora se inicia. Entro no elevador, pergunto a uma das pessoas que lá se encontra se me pode informar onde posso levantar o meu cartão de visitante. Amanhã não quero estar a perder tempo com este tipo de coisas. De imediato alguém se oferece para me indicar o local onde deverei dirigir-me, mas, não é tudo. Uma outra pessoa de imediato se disponibiliza para me acompanhar até lá. Diz-me que lhe aconteceu o mesmo quando veio internar o seu marido. Achou ser esta a forma que tinha de me auxiliar, como lhe tinham feito a ela. Já é segunda feira. Afinal houve uma alteração na ordem inicialmente prevista para as cirurgias de hoje. Às 6H30, via WhatsApp, recebo uma foto tua, com a seguinte legenda: “Aqui vou eu. Até logo”. A minha resposta foi: “Vai com Deus, sempre a proteger-te”. Não posso dizer que não fiquei muito aflita e ...

A NOTÍCIA QUE NINGUÉM QUER TER: A PRIMEIRA ETAPA

(continuação da publicação anterior) Engolir, engolir, fazer com que as lágrimas não cheguem a cair. Esse é o meu grande desafio nesta hora. Não posso demonstrar o quão aflita estou. Tenho de dar coragem, tenho de sorrir, apesar da minha alma, mais não fazer do que chorar. Passam alguns dias e após variadíssimos exames complementares de diagnóstico, ficámos a saber que não tens apenas um, mas sim dois órgãos afetados por essa monstruosa doença. Recebemos um telefonema e eis que outro momento de tensão, se instala. Vais ter de te submeter a uma cirurgia, antes de iniciares os tratamentos que te foram já prescritos. Sinto que se está a lutar contra o tempo. Tu pareces-me muito decidido. É preciso lutar, dizes tu. Começaram os procedimentos inerentes à tua primeira cirurgia. Eu, aqui me encontro, muito atenta a todo e qualquer pormenor. Nada pode escapar. Tenho de estar à altura das tuas reais necessidades. Estudo, leio muito sobre a tua doença. Não sei exa...

A NOTÍCIA QUE NINGUÉM QUER TER

Acabas de me ligar e dizes: Já recebi o resultado é “carcinoma maligno”. Estou ao volante. Não sei bem o que dizer, nem o que fazer. Parar será a opção? Continuo a guiar. Na minha cabeça o eco das tuas palavras, faz-se sentir. Já não me lembro bem o que te disse no momento mas sei que te encorajei e que me tentei encorajar a mim própria. Que safanão acabámos de levar. Estou a tremer. Passa-me tudo pela cabeça ao mesmo tempo, menos aquilo que supostamente tinha de fazer, antes de tu me ligares. Esqueci-me do que ia fazer e esqueci-me da direção que teria de tomar. Perdi-me!!! Andei às voltas. De repente, decidi parar o carro. Saí e comecei a caminhar. Dei comigo a pé, de olhos cheios de lágrimas a calcorrear algumas ruas da cidade. De repente vejo um sinal de sentido proibido e não é que me esqueço que estou a caminhar e decido ir por outro lado, já que por ali, não era permitido. Estou sem rumo, estou sem chão. Eu que tanto tenho andado na vida …. Até que paro e di...