Algures em Novembro de 1990 Sentada num banco da avenida, a velhinha abria com custo aqueles olhos já semicerrados, já cansados de tantas anos a olhar. Olhou durante toda a sua vida e nada viu. Passaram-lhe diante dos olhos, por vezes, coisas que a deixavam deslumbrada, mas só durante uma curta passagem. Depois, depois terminava... Agora, ali no banco, sentadinha ao sol, olhava, olhava... "Que faz aí sentada, velhinha abandonada?" perguntou-lhe alguém. Sem olhar, ela respondeu: "Asso no aço do meu fogareiro, lembranças assadas e já ressequidas, meu senhor." Ao responder, olhou-o e reconheceu-o. Foi há tantos anos, ainda as lembranças não eram lembranças. Foi na juventude. Cruzaram-se. Ah! que anos loucos. Depois ele desapareceu, seguiu o seu rumo e ela seguiu o dela. Tantas coisas aconteceram entretanto. E agora estavam ali os dois, velhos, sem nada mais poderem fazer a não ser recordar... Isto não passou de imaginação da velhinha. Ele não passou, nada lhe perguntou...
O que já é hábito não causa surpresa... Curioso??