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INTERRUPÇÃO NÃO PROGRAMADA

SONHO

  O céu estava azul, limpo e só se via uma nuvem, grande, branquinha, tal e qual um bocado de algodão.  E lá no meio do algodão estava ela, sentada, extasiada.  Porque podia olhar cá para baixo e ver que estava tudo calmo, tudo no seu devido lugar. Os países com as suas cidades bem ordenadas, limpas e organizadas. Os jardins bem tratados. Os lagos e os rios límpidos, até se vislumbravam os peixes lá bem no fundo,  alguns e outros vinham à superfície, davam um salto e mergulhavam. Ela estava perturbada com o silêncio que reinava à sua volta. Era demais tanto silêncio. Prestou atenção e afinal havia o suave piar dos pássaros. Prestou mais atenção e viu as pessoas, cada uma delas dedicada aos seus afazeres. Empregos, compras, desporto, passeios nos jardins, idas ao cinema, animais a passear, pessoas a namorar. Tudo organizado, tudo em paz, tudo a correr bem qualquer que fosse o país.  Pessoas felizes nas suas rotinas.  Mesmo os menos abastados viviam tranquilo...

PROFISSÃO: MÃE

Ana foi renovar a sua carta de condução. Pediram-lhe para informar qual era a sua profissão. Ela hesitou, sem saber bem como se classificar. "O que eu pergunto é se tem um trabalho", insistiu o funcionário. " Claro que tenho um trabalho", exclamou Ana. "Sou mãe". "Nós não consideramos 'mãe' um trabalho. Vou colocar Dona de casa! ",  disse o funcionário friamente. Não voltei a lembrar-me desta história até ao dia em que me encontrei em situação idêntica... A pessoa que me atendeu era obviamente uma funcionária de carreira, segura, eficiente, dona de um título sonante. "Qual é a sua ocupação?" Perguntou. Não sei o que me fez dizer isto; as palavras simplesmente saltaram-me da boca para fora: "Sou Doutora em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas." A funcionária fez uma pausa, a caneta de tinta permanente a apontar para o ar e olhou-me como quem diz que não ouviu bem... Eu repeti pausada...