Avançar para o conteúdo principal

INTERRUPÇÃO NÃO PROGRAMADA

AS MINHAS BODAS DE ALABASTRO

Comemorar 46 anos de vida em comum (bodas de alabastro), dá muito que pensar, e as recordações que são muitas, transportam-me para o dia 26 de julho de 1975, dia do meu casamento no ano em que vivíamos o entusiasmo da revolução de abril.

Revejo uma jovenzinha a transpor a porta da igreja, pelo braço do pai, sorriso nervoso, o coração a transbordar de amor, e uma  vontade imensa de que todos testemunhem a felicidade que sente. No altar aguarda-a outro jovem,  cheio de confiança de que a partir daquele dia, juntos, concretizarão tudo o que idealizaram nos dois anos de namoro.

Dúvidas? Nenhumas! Certezas? Todas, já que a inocência própria da juventude (digo eu agora), fazia com que nem por um segundo duvidassem das suas capacidades, ou não estivéssemos, para além de tudo, a viver o tempo de uma revolução, que nos fazia especiais, nos fazia querer cortar com amarras, com tradições e com quase tudo o que até ali era feito sem quaisquer objeções.

Contestar era a palavra-chave. Lembro-me do olhar da minha querida mãe no dia em que lhe disse que não queria levar o tradicional bouquet de noiva. "Mas filha, porquê isso? Nunca vi semelhante". Porquê? Simplesmente porque não quero. E não houve quem me demovesse. Não foi tarefa fácil a substituição, mas uma malinha de cerimónia trazida por uma familiar vinda dos EUA foi a salvação...

Hoje, ao relembrar este e outros episódios, sorrio com a condescendência própria dos meus atuais 63 anos. Naquela altura o que eu queria era simplesmente ser "do contra", fosse do que quer que fosse. Esta fixação, aliada a tantas outras, fizeram com que os preparativos do meu casamento tivessem sido um martírio, especialmente para a minha mãe. E confesso que não me lembrei de contestar a cerimónia religiosa, porque isso teria sido muito mais sério para toda a família. No entanto, esta recordação, fez-me lembrar que o padre que nos casou, passado pouco tempo, abdicou do sacerdócio e tornou-se activista de esquerda. O que terá ele pensado enquanto nos casava? Não sei, mas lembro-me que achava "o máximo" tudo o que dizia e quanto mais chocante mais aplausos merecia, pois era isso que a liberdade nos permitia.

Hoje, passados 46 anos desde esse dia, as minhas certezas foram dando lugar cada vez mais a dúvidas e, na verdade, se assim não fosse, era sinal de que não tinha crescido, não tinha aprendido nada com a vida em comum e, tal como foi acontecendo com o país após a revolução, a nossa vida foi uma constante de momentos felizes e outros nem tanto, de certezas confirmadas e outras completamente derrotadas. Entre umas e outras quais as dominantes? Não me interessa resolver essa operação matemática, já que, ao dia de hoje, não há qualquer decisão importante a tomar, para além da de nos respeitamos um ao outro e mostrarmos diariamente que a vida é uma aprendizagem constante que vale a pena ser vivida a dois.

Ana Toste


Comentários

Mensagens populares deste blogue

OLHAR DE FORA PARA DENTRO

Caro leitor,  Pode efetivamente soar estranho quando se diz olha de fora para dentro, mas é exatamente por isso que vou abordar esta visão.  Todos nós olhamos o mundo de dentro para fora com os nossos valores e crenças e preconceitos.  Vim de férias para um sítio onde já fui muito feliz tanto na infância como na minha adolescência. Nada está como era. Nada. Nem as pessoas nem os hábitos nem os sítios.  E obrigou-me a olhar de fora para dentro. E eu como estou? Como mudei? Que dores trago? Que felicidades ganhei ao longo dos anos? Quais as coisas realmente importantes com as quais me devo preocupar?  Ter a capacidade de fazer e melhorar este processo permite que consigamos olhar melhor. Perceber melhor. Sentir melhor.  E por aí? Vamos olhar de fora para dentro e tentar colocarmo-nos no lugar do outro?  Mjsoares

NOVACIONISMO

Uma das minhas ocupações preferidas nos tempos livres é fazer palavras cruzadas ou cruzadexs. Num destes dias apareceu-me a palavra “NOVACIONISMO” que despertou a minha curiosidade por desconhecer por completo o seu significado. Fui investigar e quando dei por mim estava no Século III. NOVACIANO foi papa interino entre São Fabião e São Cornélio. Portanto NOVACIONISMO deriva do nome de Novaciano que foi considerado antipapa e que se opunha à integração dos “renegados” cristãos daquele tempo. A seguir podem ler alguns excertos de textos que encontrei na internet sobre NOVACIANO e NOVACIONISMO. Novaciano Antipapa, de origem oriental, foi para Roma durante o pontificado de São Fabião (236 -250) e ordenado presbítero por este, apesar de contrariar o costume de não se poder ordenar alguém que tinha sido batizado apenas por estar às portas da morte, como terá acontecido a Novaciano algum tempo antes. Esta ordenação resultou do grande apreço que São Fabião tinha pelas qualidades de Novaciano, ...

SOBRE PESSOAS

  Saí da minha rotina durante cinco dias, viajei. Não muito tempo, nem para muito longe, mas durante esse período apreciei pessoas. Não que habitualmente não o faça, mas em férias estamos mais disponíveis, mais atentos, mais predispostos e com menos distrações/ocupações. Apreciei os opostos presentes na postura e nos comportamentos das pessoas, desde a imensa simpatia e disponibilidade da “equipa” do hostel onde fiquei (todos ingleses) que confiam em pleno nos seus hóspedes e transmitem, assim, igualmente essa confiança, bem como noutros locais: cafés, restaurantes, supermercados com agradável atendimento. Cruzei com desconhecidos na rua, que percebendo-nos de malas, na direção da localização dos transportes, nos desejarem boa viagem de regresso. Contudo, encontrei também quem estava ali a “fazer frete” e alguém até a roçar a arrogância ou antipatia (por acaso, chinesa) nesse mesmo tipo de locais. Bem como na rua um ciclista (português que até ostenta a bandeira) com os alforges da...