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INTERRUPÇÃO NÃO PROGRAMADA

O MEU DIA DE ANOS


Nove de novembro, dia dos meus anos.  Para mim um dia igual a tantos outros, não fosse o carinho das mensagens, telefonemas e prendas dos que teimam em não cumprir com o meu pedido de não o fazerem. Todos os anos o repetem, porque estão seguros de que não cumprirei a ameaça de não os aceitar. 

A este propósito, e com o objetivo de vos dispor bem, vou contar-vos um episódio, digno de uma comédia, vivido há alguns anos atrás, exatamente no dia dos meus anos, e fruto de uma prenda recebida de um grupo de amigas queridas.

Nesse ano, as amigas mais chegadas decidiram acarinhar-me com um voucher de um salão de beleza local, que constava de uma “massagem aromática manual de relaxamento profundo”.

Encantada com esta oferta, decidi desfrutar dela no mesmo dia. Se assim pensei, melhor o fiz. Dirigi-me ao salão de beleza, e após os cumprimentos iniciais, conduziram-me à sala onde me tratariam e eu sairia revigorada lá para o fim da tarde.

Deitei-me na marquesa com as costas voltadas para cima, conforme me indicou a massagista, enquanto ela acendia incensos e dispunha os óleos aromáticos com que me trataria, reduzia a luz e ligava o leitor de CD’s que reproduziria uma musica suave, conforme mandavam as regras de relaxamento. Tudo do melhor que possam imaginar. 

Devo dizer-vos, e para melhor entenderem o que vem a seguir, que tenho diagnosticadas, na coluna, umas hérnias “de estimação”, que me impedem de adotar certas posições, sem dor associada. Dito isto, e continuando o meu relato, a massagista iniciou o seu trabalho com todo o empenho e vontade de me agradar. Ao mesmo tempo que procurava desfrutar da massagem, fui percebendo que o cheiro dos incensos e dos óleos que me tinham sido destinados, me estavam a incomodar. No entanto, e para não desgostar a jovem massagista, não me queixei e deixei-a continuar o seu trabalho.

Terminada a massagem e ao tentar levantar-me, não o consegui fazer. Estava como que colada à marquesa, e sem ajuda não o teria conseguido.  A minha coluna “gritava” de cima abaixo, mas estava finalmente concluída a minha “massagem de relaxamento profundo”.

Já sozinha no gabinete, olhei para o espelho e vi-me desfigurada, com os olhos e lábios inchados, resultado da reação aos aromas que impregnavam o ar. Não via a hora de sair para respirar ar puro. Olhei à volta, procurando um assento que me ajudasse a calçar os sapatos, e deparei-me com um pufe que aparentava ser bastante rígido, em frente a um espelho de grandes dimensões, preso numa das paredes da divisão. Ao sentar-me, e porque não contava com a sua brandura, caí para trás e bati na parede. Ouvi um estalo, e percebi que tinha acabado de partir o espelho. Nem queria acreditar no que me estava a acontecer: Fiquei siderada. Só me restavam duas alternativas, fugir dali mesmo sem roupa, ou chamar a proprietária para combinarmos como pagaria o prejuízo. Ela, com toda a doçura que a caracteriza, fartou-se de dizer que o espelho já estava rachado (o que não era verdade) e que inclusivamente já tinha pedido para o virem substituir. Mesmo sabendo que não dizia a verdade, não me restou outra alternativa senão sair e procurar regressar a casa o mais rapidamente possível.

O meu marido, que lá me tinha deixado para uma tarde de relaxe, deparou-se com uma mulher que caminhava com dificuldade, com os olhos e lábios inchadíssimos, e que tinha deixado para trás um rasto de destruição.

Até morrer hei-de sempre rir às gargalhadas ao recordar este dia de anos catastrófico, e por isso mesmo, e porque não abundam os textos com humor, para esquecermos, nem que seja por breves momentos o que de mau assola este mundo, que hoje resolvi partilhá-lo convosco, esperando que se divirtam ao lê-lo, tal como eu me diverti a relembrá-lo. 

Até à próxima. Fiquem bem.

Ana Toste


Comentários

  1. Só tu e as tuas peripécias para me arrancarem umas gargalhadas. Muito obrigada. Precisa mesmo!

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  2. Tive de ler o texto às prestações porque o riso era tanto que as lágrimas respingavam e ficava com os olhos nublados sem conseguir ver. A descrição é tão pormenorizada que eu consegui estar na massagem acompanhar a “desgraça”, desde o seu princípio, meio e fim e ainda no fim a cara do Helio. 🤣😅😂

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  3. Adorei Ana😂😂😂😂! Já há muito que não me ria desta forma. Como te conhece e passamos bons momentos juntas( que tanto adorei) consigo imaginar actua doce massagem 😂😂. Obrigada pela partilha. Um abraço cheio de carinho e amizade. ( Adorei a parte do Hélio 😂😂)

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  4. Ana fartei-me a rir 🤣 parabéns pelo texto, tens o dom da palavra, beijinhos 😘

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