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INTERRUPÇÃO NÃO PROGRAMADA

SENTIR DE PERTO A COVID-19

O telemóvel toca uma e outra vez. Acordamos em sobressalto, e enquanto olho o mostrador do relógio e percebo que são 4h30 da manhã, o meu marido atende o amigo que nos liga, e que só pode ser por uma urgência, pois nunca o faria se assim não fosse.

Apercebo-me de frases entrecortadas por soluços e, ao meu lado, o meu marido, depois de uma exclamação inicial de incredulidade, fica em silêncio, enquanto lhe correm lágrimas pelo rosto.

Quero que me diga o que passa, mas ao mesmo tempo receio confirmar o que penso ter percebido. Infelizmente não há que duvidar. Aconteceu mesmo, e aquele foi um telefonema que não queríamos receber… Uma das nossas grandes amigas morreu, e morreu de forma repentina, sem um sinal, sem um qualquer aviso prévio. Partiu e nunca mais veremos os seus olhinhos brilhantes de alegria sempre que nos encontrávamos, nem ouviremos as suas gargalhadas contagiantes, de uma inocência sem par.

Viremos a saber mais tarde que, quer ela, quer os seus pais, nossos irmãos de coração, testaram positivo à COVID-19. À dor da sua partida, junta-se agora a angústia de não nos servir de nada apanhar um avião rumo ao Porto, pois nem podemos abraçar aqueles que tanto amamos, nem acompanhar à última morada aquela que vimos crescer, vibrando com cada conquista e sofrendo com cada derrota. E agora, é uma pandemia, qualquer coisa que até há pouco tempo só conhecíamos da ficção, que nos impede de a acompanhar naquele que será o último percurso do seu corpo neste mundo.

Tudo isto me parece irreal. Ouço os noticiários e fico incrédula. Gente que se passeia com uma trela sem cão. Gente que se senta em grandes grupos à volta de uma mesa brindando não sei o quê nem a quem, sem o mínimo de cuidado pelas regras emanadas pela DGS. Gente que reside em vilas pescatórias sob cercas sanitárias, que de barco, rumam às vilas ao lado para irem ter com amigos a determinados cafés.

Será que estas pessoas esperam que lhes aconteça uma tragédia idêntica à dos meus amigos, para tomarem consciência de que este é um tempo de, mais do que nunca, unirmos esforços no sentido de lidarmos com algo completamente novo, que não escolhe idades, etnias ou estratos sociais, para, de forma silenciosa, entrar nas nossas vidas e fazer os maiores estragos que possamos imaginar?

Esta não é uma altura para os armarmos em super heróis. Esta sim, é uma altura para termos o maior respeito pelo próximo. A não ser assim, quase diria que não somos dignos de existir, e de fazermos parte deste grande grupo de seres humanos que habitam um planeta que está doente, muito doente.

Cuide-se e aos seus.

Ana Toste


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