Avançar para o conteúdo principal

INTERRUPÇÃO NÃO PROGRAMADA

A INEVITABILIDADE

Há quase nove anos vendi uma “filha”. Parece incrível e talvez até hediondo começar um texto desta forma mas, na realidade, a empresa que vendi era como se fosse minha filha. Planeei-a durante muito tempo. Sonhei com ela. Tive receio de a “pôr no mundo” mas, a vontade era enorme, não resisti e avancei.

Cuidei dela quase 14 anos. Sacrifiquei-me por ela, chorei e ri muito com os diferentes acontecimentos relativamente ao seu desenvolvimento e crescimento e continuo a achar que valeu a pena!

Tive colaboradores com feitios dispares, com formas de estar peculiares mas com todos eles aprendi a ser o que sou hoje e estou segura que deixei algumas sementinhas no desenvolvimento pessoal de cada um.

Quando chegou o momento de  vender a empresa, fiz questão de no negócio incluir todos os colaboradores sem excepção. Para mim só assim fazia sentido. Eles também eram parte integrante do meu sucesso. Sem eles, nunca teria alcançado o que alcancei. Eramos uma empresa prestigiada. Eramos frequentemente referenciados como empresa de qualidade onde os valores e missão eram constantemente realçados. Fizemos coisas incríveis. Aprendemos todos imenso. Fazíamos parte dum grupo muito restrito de empresas, que à época, consideravam os seus colaboradores como família e premiavam frequentemente o empenho e motivação de cada um.

Não foi fácil a dita negociação pois quem compra, normalmente quer fazer uma “limpeza” quase que diria geral e depois sim, colocar no tabuleiro de xadrez , as peças como muito bem entender mas, se não fosse dessa forma, eu não venderia a empresa. Não deixaria a minha equipa no desemprego. Sentia-me responsável por cada um deles. Fiz questão de tranquilizar os colaboradores. Na altura, pareceu-me que ficaram gratos pela minha atitude.

O negócio concretizou-se! Depois deste relato todo, o que tenho para vos transmitir é que já se passaram alguns anos e até hoje, nenhum deles me voltou a ligar no meu aniversário, nem tão pouco me desejou um Natal Feliz! Que estranha forma de estar na vida! Afinal de que valeu toda a minha dedicação?

Há dias ao comentar este assunto com uma pessoa amiga, ela olhou para mim e disse-me:

- Acorda para a vida!!! As pessoas são todas assim. Não és o primeiro nem o último caso em que as pessoas se comportam desta forma. São quase todas assim. É uma inevitabilidade.


Comentários

  1. Enquanto li o texto, visualizei a mulher, a empresária com a qual tanto me queria identificar. A que tanto incentivou e ajudou a que também tivesse a minha própria empresa (com um outra amiga). A que, a qualquer dia e hora, estava sempre disponível para tirar uma dúvida ou confirmar uma certeza, fazendo que me sentisse perfeitamente segura, frente a qualquer questão colocada fosse por quem fosse, viesse de onde viesse. Fê-lo sempre com uma generosidade imensa pois é um ser humano inigualável.
    Falei e falo nela vezes sem conta, quer com amigas, colegas ou em contexto de formação, porque o que me ensinou não tem preço e tem-me servido para a vida. Quase me atreveria a dizer que não só marcou a minha vida, como a de muitas outras pessoas com quem possivelmente nunca se cruzou, porque não raras vezes, em conversa, me dizem "... tal como te disse a tua amiga....." citando uma daquelas frases que transporto na minha mochila de vida e que me foram oferecidas por este ser humano maravilhoso.
    Os colaboradores da sua empresa tiveram um privilégio ímpar, e possivelmente embebidos pelo saber aprendido e pelo seu próprio ego, deixaram-se levar por valores duvidosos, na luta terrível de fazer sobressair o EU sobre o OUTRO sem dó nem piedade. No entanto, acredito, quero mesmo muito acreditar, que a sementa lá está, e que haverá um dia em que também pararão para pensar e, mesmo que intimamente, dirão , "... como diria a ..... o melhor será .....".
    Em meu nome e no de todos eles, um muito, muito OBRIGADA!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

A MINHA VIAGEM AO JAPÃO

Verdade, fui ao Japão. Verdade, aventurei-me a, depois de 2h30 de viagem para Lisboa, meter-me num outro avião para, durante 7h30, fazer Lisboa-Dubai, e ainda noutro para mais 9h30 até Tóquio. Ainda hoje me pergunto como me aventurei a tal, eu que me arrepio sempre que se fala em viagens de avião. Mas fi-lo e ainda bem!   O Japão nunca foi um país que me despertasse grande interesse, logo uma viagem que, não fosse a minha amiga Manuela, provavelmente não teria feito. Por diversas vezes já lhe agradeci e vou sempre agradecer-lhe ter-me ligado, naquele dia, a dizer-me “… vamos?” Mas, se nada é por acaso, é porque agora é que era a altura certa para a fazer, pois a idade já me permitiu uma plenitude que antes não alcançava. Já regressei há vários dias e ainda não “aterrei” no meu quotidiano. Continuo, a cada minuto, a visualizar imagens, paisagens, gestos e atitudes que me levam ao que, agora, considero um outro mundo. Um outro mundo em que é notório o respeito pelo outro, nomead...

A ARTE, A BELEZA E A GRATIDÃO

  Sou frequentadora assídua da Confeitaria Paulista na Maia, onde a D. Elvira e o Sr. Jorge Mendes (proprietários), fazem questão de nos receber de “braços abertos.” Tomo o meu café e pão com manteiga neste maravilhoso espaço. É um local muito familiar. Um espaço onde nos sentimos muito bem!!!  Somos bem recebidos; Bem tratados; Bem-vindos!!! Sentimo-nos em casa. A D. Elvira faz questão de nos fazer sentir únicos. Há uns dias, tive oportunidade de ver uma autêntica obra de arte saída das mãos do proprietário da Confeitaria Paulista. Trata-se da peça cuja fotografia está a ilustrar esta publicação. Ao ter acesso ao dito quadro, acreditem, que senti ARTE, que senti BELEZA e depois de saber a história que o envolve, senti que ali, existia GRATIDÃO.  Ora o Sr. Jorge Mendes, decidiu pôr mãos à obra e fazer este maravilhoso trabalho em pão. Sim, trata-se de pão e não outro material qualquer. Explicou-me as múltiplas e morosas voltas que este trabalho dá, até chegar ao resultado...

A LOUCURA DO MUNDO

  Tinha decidido que hoje escreveria de novo sobre a minha viagem ao Japão, e que vos contaria algumas peripécias dignas de registo humorístico, daquelas que sempre me acontecem e me divertem ao ponto de querer partilhar com outros, e porque me faz feliz. Faz-me feliz fazer aparecer um sorriso no rosto de quem lê os meus textos, um sorriso que muitas vezes anda escondido e tarda em aparecer. No entanto, nem sempre isso é possível, e hoje não pode ser assim. Hoje tenho de partilhar convosco a minha tristeza, a minha revolta, a minha frustração. Desculpem-me mas terá de ser assim. Logo pela manhã, como habitualmente, abri o rádio para me atualizar acerca do que se passa no nosso país e para além dele, e o que fui ouvindo fez-me decidir que não concluiria o meu texto nos termos em que tinha pensado. Não tinha esse direito perante o que estava a ouvir. Se o fizesse era como se também estivesse a assobiar para o lado perante o horror que me descreviam. Apesar de ser uma peça insignifica...