Avançar para o conteúdo principal

INTERRUPÇÃO NÃO PROGRAMADA

A NORMALIZAÇÃO DA GUERRA

 Estamos a 24 de fevereiro de 2022. Televisões e rádios noticiam que aconteceu exatamente aquilo que duvidava que viesse a ser uma realidade: a Rússia invadiu a Ucrânia.

Nos dias que se seguiram, sucederam-se a toda a hora diretos desse país sobre o qual, confesso, não sabia muito. As imagens que fui vendo, deixavam-me com os olhos presos ao écran da televisão, perplexa, horrorizada e muitas vezes imaginando o que faria se visse algum dos meus familiares que tanto amo, num daqueles cenários de destruição e medo.

Senti-me solidária com um homem a quem nunca tinha prestado muita atenção, e que se chama Volodymyr Zelensky, e sofri com ele de cada vez que percebi nas suas palavras a tristeza por ver o seu povo massacrado por outros que talvez nem percebam muito bem porque o fazem.

Tenho sofrido com os milhões de ucranianos que tiveram de fugir para outros países, levando pela mão filhos pequeninos, sem lhes poderem prometer nada para além da garantia do imenso amor que lhes têm. Sofri ao imaginar filhas que para salvarem os seus filhos, tiveram de deixar os seus próprios pais, sem condições físicas para também fugirem ao horror que os rodeia.

Desde esse dia que não necessito de aguardar pelo horário normal dos noticiários, porque a guerra passou a dominar o meu dia a dia e, quase em direto, fui sabendo das maiores atrocidades, as quais, repito, não acreditava que, na Europa, pudessem voltar a acontecer.

De tanto ouvir debates e comentadores, com maior ou menor competência em termos de política internacional e estratégia militar, dei comigo também a emitir opiniões, como se percebesse alguma coisa sobre os temas em questão.

E assim, entre imagens de bairros civis totalmente destruídos por misseis que supostamente só deveriam atingir estruturas militares, de refugiados em lágrimas que cruzam fronteiras sem saberem para onde vão, de exumação de corpos enterrados em qualquer sítio e que se percebe terem sido torturados antes de serem mortos, e,e,e…. de repente, eu, que sempre me considerei uma humanitária, uma mulher sensível ao sofrimento dos outros, passados estes dois meses, percebo que o que me mostram já não me incomoda assim tanto, e que sinto até uma certa frieza perante o que vejo. Como é possível que até uma guerra, uma guerra terrível, tenha tido em mim este efeito de habituação? E esta constatação assustou-me. Assustou-me não só por mim, mas porque me interroguei e interrogo, se serei só eu, ou se acontece também a outros que ainda não o verbalizam. E o perigo está exatamente aí, ou seja, na normalização da guerra. Na normalização dos bombardeamentos, na normalização das atrocidades, desde que estas aconteçam à distância e os misseis não atinjam as nossas próprias casas.

Espero sinceramente que este perigo não seja real. Rezo para que a comunicação social, com os seus diretos, debates e comentários quase constantes, não faça com que  nos habituemos a esta situação medonha, e passemos a senti-la como algo cada vez mais  normal à nossa volta. Que assim não aconteça é uma esperança, mas que o perigo existe é também uma verdade. Esperemos para ver.

Ana Toste


Comentários

Mensagens populares deste blogue

NOVACIONISMO

Uma das minhas ocupações preferidas nos tempos livres é fazer palavras cruzadas ou cruzadexs. Num destes dias apareceu-me a palavra “NOVACIONISMO” que despertou a minha curiosidade por desconhecer por completo o seu significado. Fui investigar e quando dei por mim estava no Século III. NOVACIANO foi papa interino entre São Fabião e São Cornélio. Portanto NOVACIONISMO deriva do nome de Novaciano que foi considerado antipapa e que se opunha à integração dos “renegados” cristãos daquele tempo. A seguir podem ler alguns excertos de textos que encontrei na internet sobre NOVACIANO e NOVACIONISMO. Novaciano Antipapa, de origem oriental, foi para Roma durante o pontificado de São Fabião (236 -250) e ordenado presbítero por este, apesar de contrariar o costume de não se poder ordenar alguém que tinha sido batizado apenas por estar às portas da morte, como terá acontecido a Novaciano algum tempo antes. Esta ordenação resultou do grande apreço que São Fabião tinha pelas qualidades de Novaciano, ...

RESPONSABILIDADE SOCIAL: QUE FUTURO?

  O clique para este tema não é de agora!! Agora é deveras visível e incomodativo!! Talvez por ver os meus filhos crescer e ter que lhes explicar porque se estacionam carros em cima de passadeiras, passeios, em segunda fila ou em locais que não são de todo autorizados para parquear viaturas!! Talvez por lhes ter que explicar porque os contentores transbordam de lixo semana após semana, deixando as ruas, os passeios sujos e quase intransitáveis!! Talvez por lhes ter que explicar que qualquer pessoa com mobilidade reduzida tenha que se amanhar sem ninguém lhe estender um braço!! Talvez por eu próprio não conseguir entender porque é que a intenção é (quase) sempre a mais egoísta sem olhar a meios nem a qualquer tipo de respeito pela outra pessoa. Não me importam as classes sociais, os estatutos, os cargos, a riqueza. Importa-me sim preocupar-me que há sempre alguém mais necessitado que eu! Alguém que tem mais problemas que eu! Alguém a quem a vida não corre bem! Alguém que está a pass...

O QUE É UM ANJO?

Um anjo espalha o bem Vê o melhor de toda a gente Vai SEMPRE mais além E, além disso, diz o que sente Um anjo ajuda todos Mesmo quando está mal E Não, nunca, jamais para Continua, mesmo que tudo pareça abismal Um anjo prevalece Afasta todo o mal A minha avó é o meu anjo Porque como ela não há igual O mundo é mais feliz contigo aqui Digo isso sem hesitar 68 aniversários depois Continuas a sorrir e amar Feliz aniversário Afonso Ribeiro