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INTERRUPÇÃO NÃO PROGRAMADA

RETALHOS DE UMA VIDA


- O Sr. é que é o “ferro-velho”?

-  Sim, sou eu.

- Então acompanhe-me. Vou levá-lo ao Sr. Comandante.

E o meu pai, pois tratava-se dele, seguiu atrás do militar que o tinha interpelado, sem fazer a mínima ideia para onde ia, nem ao que ia, ele que para além de tudo, não era nem nunca tinha sido “ferro-velho”.

Passa-se esta história no tempo em que os “americanos” tinham vindo para a Base Aérea das Lages, lugar onde só era possível entrar com uma autorização especial, mas onde se dizia estarem a acontecer oportunidades únicas de negócio, o que fazia dela o pote de ouro no final do arco-íris.

O meu pai, um jovem adulto sem quaisquer recursos para além da sua força e vontade tenazes, que aspirava, como tantos outros, a uma vida melhor para a sua família (mulher e, na altura, 2 filhos), também passava o dia a pensar na base dos americanos, como lhe chamavam, pois, quem sabe, seria ali o lugar onde podia estar o filão de ouro que lhe estava destinado. Apesar da vontade, o problema da entrada afigurava-se quase intransponível, pois não conhecia ninguém que o pudesse ajudar nesse sentido.

Um dia, ao acordar, diz à minha mãe, Lurdes, hoje vou até à base dos americanos.  – Estás doido homem, se não conheces lá ninguém, de que te serve ir até à porta e depois não entrar. Não sei, mas logo se vê, responde-lhe ele.

Pede um automóvel emprestado a um amigo e segue rumo à base dos americanos, com a audácia que só a juventude permite. Chegando à porta de armas da entrada, estaciona o carro, sai e dirige-se ao militar de serviço, simulando uma confiança que estava longe de sentir, e ainda sem saber bem o que iria dizer. Este, ao vê-lo pergunta: É o Sr. o “ferro-velho”? E é exatamente aqui que tudo começa. O meu pai, sem pensar, confirma. O outro pede que o acompanhe, e o meu pai, que não diz nem entende uma única palavra de inglês, vê-se frente a um homem que também não entende uma palavra de português, mas com a ajuda de um intérprete que entretanto foi chamado, dá consigo a comprar um imenso armazém de material, que  vende no mesmo dia, a outros, realizando o valor para pagar o que comprou, e obtendo lucro que lhe dá para, no dia seguinte, voltar ao lugar que lhe dará a oportunidade de iniciar um novo ciclo da sua vida, em que alcançará o sonho de proporcionar aos seus, aquilo que nenhum familiar ainda tinha conseguido.

Cresci a ouvir esta e outras histórias fascinantes da sua vida. E sempre que lhe perguntava quem seria afinal o tal “ferro velho”, respondia que não fazia a mínima ideia de quem seria. E era mesmo verdade. Era exatamente como dizia.

Hoje, passados anos e anos, quando já não sinto a presença física deste homem maravilhoso, continuo fascinada pelos acontecimentos da sua vida.

Tanto e tanto para contar…. Tantos retalhos para juntar. 

Quem sabe hoje tenha iniciado esse trabalho. Só o tempo o dirá.

Ana Toste


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