Avançar para o conteúdo principal

INTERRUPÇÃO NÃO PROGRAMADA

RENASCER

Em regime de teletrabalho, devido à Covid19, recebo uma mensagem de alguém que conheço, a pedir o meu contacto mais direto. Não hesito, e com a maior naturalidade dou o meu número de telemóvel, que toca quase de imediato.

Do outro lado, a voz de um homem, que sendo figura pública ligada à política, fui aprendendo a respeitar, sobretudo pela tomada de posições em que se percebe a preocupação do uso de valores que todos prezamos.

Sem qualquer preâmbulo diz: “Ana, fui convidado para o cargo de Secretário Regional da Saúde e Desporto (na vertente saúde…)” Esta abordagem alerta-me imediatamente para as recentes eleições e a constituição do novo governo na Região Autónoma dos Açores, terra onde vivo e que me viu nascer. “… Aceitei, e estou a constituir a minha equipa de trabalho…” continua ele, “…para minha secretária pessoal vejo a Ana. Gostaria muito, por isso, que aceitasse o meu convite”.

Fico atónita e quase deixo cair o telemóvel. Pela minha cabeça rapidamente passa uma sucessão de imagens. Primeiro, as de uma jovem com alguma graça e a segurança própria da juventude, a secretariar cerca de vinte anos a mesma pessoa, na sua função de membro de um outro governo, presidente do conselho de administração de uma empresa pública e, por último, deputado do Parlamento Europeu. 

As imagens passam em catadupa, e a jovem dá lugar à mulher madura, que durante outros tantos vinte anos passa a exercer funções completamente distintas daquelas pelas quais sentia verdadeira paixão, e que lhe proporcionaram momentos de felicidade indescritível. Uma mulher que, hoje, apesar de dar o seu melhor na equipa de que faz parte, já sente por vezes uma certa resistência dos mais novos, pois a “velhinha” do grupo já estará um pouco desatualizada… Uma mulher que luta diariamente para se motivar a si própria, pois sabe que se não o fizer, será indiscutivelmente a maior prejudicada.

E, assim, esta mulher, passou a acreditar que há um tempo próprio para tudo, e que esse tempo para ela se esgotou. Convenceu-se que a sua prestação como profissional ativa estava a atingir a linha da meta. Passou até a falar em aposentação, palavra que até há uns anos atrás nem fazia parte do seu vocabulário.  

E eis que, de repente, mesmo apesar da segurança e serenidade que foi adquirindo ao longo do tempo, face a um convite perfeitamente inesperado, não sabe o que responder, e quase sem voz, diz qualquer coisa como “mas eu Dr….? Eu já não tenho a energia que tinha aos 30, 40 ou 50 anos. Eu já tenho 63”.

“Provavelmente será como diz, mas o que procuro é alguém que tenha experiência e maturidade e isso adquire-se com a idade” responde ele.

Peço-lhe algum tempo para decidir, mas a verdade é que mesmo antes de desligar já sentia de forma inequívoca a vontade de me testar a mim própria, e tive a certeza que não resistiria ao que me estava a ser oferecido.

Horas mais tarde, foi isso exatamente que fiz, porque ser escolhida, de entre tantas jovens ativas e competentes, aos 63 anos, faz-nos sentir bem, mesmo muito bem. Faz-nos sentir, de novo, uma peça chave da engrenagem do mundo do trabalho. 

E foi com esta sensação de alegria e emoção que cruzei a porta do edifício onde trabalharei nos próximos tempos, cheia de vontade de provar a mim própria, mais do que a qualquer outro, que afinal a linha da meta ainda está longe.

Se serei ou não capaz, só o tempo o dirá. Por enquanto asseguro-vos que até a dor no joelho que me infernizava a vida, resolveu dar-me tréguas e anda adormecida. Ou serei eu que não me tenho permitido pensar nela?

Aguardem notícias minhas, pois tenho intenção de ir partilhando convosco o meu renascer para um mundo que julgava perdido para sempre.

Protejam-se e até um dia destes.  

Ana Toste     


Comentários

  1. Esperto, esse secretário!
    Nada como um fiel da balança.
    Que esse joelho não te doa nos próximos 4 anos.

    ResponderEliminar
  2. Muitos parabéns, quando se gosta do que se faz. .. até as dores ficam com medo! E de certeza que vai correr muito bem esta nova "velha " etapa da tua vida, beijinhos da tua colega de secretaria SRSD " Haja saúde e Desporto 😂😂😂😚😚😷

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

OLHAR DE FORA PARA DENTRO

Caro leitor,  Pode efetivamente soar estranho quando se diz olha de fora para dentro, mas é exatamente por isso que vou abordar esta visão.  Todos nós olhamos o mundo de dentro para fora com os nossos valores e crenças e preconceitos.  Vim de férias para um sítio onde já fui muito feliz tanto na infância como na minha adolescência. Nada está como era. Nada. Nem as pessoas nem os hábitos nem os sítios.  E obrigou-me a olhar de fora para dentro. E eu como estou? Como mudei? Que dores trago? Que felicidades ganhei ao longo dos anos? Quais as coisas realmente importantes com as quais me devo preocupar?  Ter a capacidade de fazer e melhorar este processo permite que consigamos olhar melhor. Perceber melhor. Sentir melhor.  E por aí? Vamos olhar de fora para dentro e tentar colocarmo-nos no lugar do outro?  Mjsoares

NOVACIONISMO

Uma das minhas ocupações preferidas nos tempos livres é fazer palavras cruzadas ou cruzadexs. Num destes dias apareceu-me a palavra “NOVACIONISMO” que despertou a minha curiosidade por desconhecer por completo o seu significado. Fui investigar e quando dei por mim estava no Século III. NOVACIANO foi papa interino entre São Fabião e São Cornélio. Portanto NOVACIONISMO deriva do nome de Novaciano que foi considerado antipapa e que se opunha à integração dos “renegados” cristãos daquele tempo. A seguir podem ler alguns excertos de textos que encontrei na internet sobre NOVACIANO e NOVACIONISMO. Novaciano Antipapa, de origem oriental, foi para Roma durante o pontificado de São Fabião (236 -250) e ordenado presbítero por este, apesar de contrariar o costume de não se poder ordenar alguém que tinha sido batizado apenas por estar às portas da morte, como terá acontecido a Novaciano algum tempo antes. Esta ordenação resultou do grande apreço que São Fabião tinha pelas qualidades de Novaciano, ...

SOBRE PESSOAS

  Saí da minha rotina durante cinco dias, viajei. Não muito tempo, nem para muito longe, mas durante esse período apreciei pessoas. Não que habitualmente não o faça, mas em férias estamos mais disponíveis, mais atentos, mais predispostos e com menos distrações/ocupações. Apreciei os opostos presentes na postura e nos comportamentos das pessoas, desde a imensa simpatia e disponibilidade da “equipa” do hostel onde fiquei (todos ingleses) que confiam em pleno nos seus hóspedes e transmitem, assim, igualmente essa confiança, bem como noutros locais: cafés, restaurantes, supermercados com agradável atendimento. Cruzei com desconhecidos na rua, que percebendo-nos de malas, na direção da localização dos transportes, nos desejarem boa viagem de regresso. Contudo, encontrei também quem estava ali a “fazer frete” e alguém até a roçar a arrogância ou antipatia (por acaso, chinesa) nesse mesmo tipo de locais. Bem como na rua um ciclista (português que até ostenta a bandeira) com os alforges da...